Tempero Curinga

Tempero Curinga O melhor sabor está aqui

21/11/2018

CUTUCA BENÉ, DESCANSE EM PAZ: Aos 75 anos, o querido Bené Peão se foi, faleceu na tarde desta terça feira, partindo para fazer suas montarias lá no céu. Ele sofreu uma queda no quintal de sua casa e estava internado desde o início do mês em Divinópolis.

O velório está sendo realizado em sua residência na Avenida Ana Rosa n°281 e sepultamento hoje (quarta feira) ás 11 horas no Cemitério Parque da Esperança.

HISTÓRIA - CONTADA POR ELE MESMO

Meu nome é Benedito Alves de Souza, Bené para os amigos. Nasci em 20 de setembro de 1943, em Carmo da Mata/MG. Quando eu tinha quatro anos, minha família mudou-se para Bom Despacho para trabalhar na Fazenda Ressaca, do Dr. Miguel. Ali me criei até os catorze anos. Inclinação para montaria tive desde cedo. Aos nove anos na lida, como guia de carro de boi, eu já montava às escondidas. Depois de campear os animais no pasto, voltava para o curral montado em um deles. Andava a pé não. Com dez anos amansei quatro bois: Brinquinho, Rochedo, Recreio e Mulatão. Impressionados com minhas proezas, o patrão e os carreiros diziam que eu tinha parte com capeta. Minha mãe, cismada com essa minha suposta parte com o “demo”, me levava com frequência ao Padre Libério para ele me benzer. Eu era custoso mesmo... mas num tinha parte nada com o capeta não. Muito pelo contrário, tinha parte era com Deus. Sou um fervoroso devoto do Padre Libério.
Da fazenda Ressaca, mudamos para Bom Despacho. Trabalhei tirando leite para diversos fazendeiros da redondeza: Bené Gontijo, Geraldo Lopes, Zé Guariba... Com 15 anos de idade, já era um homem responsável. Sô Zé Guariba viajou para Goiás para visitar seus irmãos e fui eu quem ficou tomando conta da fazenda. Tirava leite e carrada de lenha para vender na cidade.
A vida de primeiro era custosa. Até os meus vinte anos não sabia o que era calçar um par de sapatos. Em compensação, a sola do pé era dessa grossura. Pisava em espinho e ele se quebrava de tão dura que era a pele da planta do meu pé. Calcei meu primeiro sapato aos 22 anos. O dinheiro valia muito. Deixei de trabalhar nas fazendas e fui trabalhar como ajudante de eletricista na Companhia Telefônica.
-> A primeira montaria: “O Cacique”
Em um sábao, estava instalando telefone, quando passou um caminhão cheio de cavalos. Curioso, perguntei ao meu colega Valdir: ‘E aqueles cavalos, para que aqueles cavalos?’ - Estão indo para o rodeio lá no Campo de Aviação’ (atual Bairro São Vicente). Estava trabalhando na Avenida das Palmeiras e o último telefone que eu instalei foi o do Nêgo Candinho. Falei pro Valdir: - Valdir me leva lá no rodeio que quero montar num cavalo. – Agora não. Vamos terminar o serviço e aí eu te levo lá.
Fomos para o rodeio... fui chegando e entrando correndo. Um segurança me segurou pela camisa e me puxou: - Ôoopa, tem que pagar! ‘Pagar nada, vou participar das montarias’! E fui entrando. O Cacique, um cavalo da tropa do Zé Capitão, tava inquieto dentro do breto. - Ô moço, deixa eu montar nesse cavalo? - Quantos anos você tem? - Vinte e dois anos. Num tinha documento não. – Então toma as esporas e pode montar. Fui calçar as esporas descalço. Não tinha botina. – Nãoo! Descalço não pode não! Ralhou o Zé Capitão. Eu respondi determinado: - Não? Mas vou montar assim mesmo porque eu não tenho botina! – Arruma emprestada, retrucou o Zé Capitão. Eu custei a arrumar um par de botinas que me servisse. O pé entrava atravessado, dobrava, entrava enjambrado, mas enfim calcei e montei. Aguentei oito pulos de um cavalo brabo de nome Cacique. Sô, ganhei dinheiro demais! Ganhei trinta e dois cruzeiros.
->Cutuca, Bené!
Vim embora correndo lá do Campo de Aviação até a Praça da Matriz. Atrás de mim veio uma cambada de meninos correndo, gritando: - Cutuca, Bené! Cutuca, Bené! Foi aí que eu fiquei com o apelido. Cutuca, Bené! Eu não dormi naquela noite. No outro dia, eu voltei para montar e ganhar mais dinheiro. Montei num cavalo em pêlo e parei. Ganhei mais trinta e cinco cruzeiros. Era muito dinheiro, pois eu ganhava nove cruzeiros por semana no meu trabalho. Fiz duas montarias no rodeio em apenas dois dias e ganhei mais que dois meses de trabalho.
O Zé Capitão falou comigo para largar de trabalhar na Companhia Telefônica e ir para rodeio que eu ia vai ficar muito duro, que eu tinha jeito pra coisa. Eu fui na conversa dele.
Isso foi em maio de 1965. Ele falou: Oh! Dia primeiro de junho tem rodeio em Divinópolis, você vai lá. Eu fui. Caí de um cavalo, esfolei a cara. Fiquei com tanta raiva que falei: Pode ir trazendo cavalo que que vou montar até parar num deles. Fiz três montarias seguidas sem tirar a espora do pé. Ganhei muito dinheiro, sabe? Dali, daquele rodeio você pensa que eu voltei pra casa? Mandei dinheiro para minha mãe e segui com a tropa do Zé Capitão. Não conhecia cidade alguma. Num tinha nem calçado. O Romeu comprou um par de botas curtinhas para mim. Dormi na pensão do Miôncio, em Divinópolis, pensando que ia voltar pra Bom Despacho no outro dia, quando de madrugada bateram na porta do meu quarto: - Ô Bené levanta para você ir pro Rio de Janeiro. Vai faltar um peão, você vai no lugar dele. E no Rio eu fiquei quatro meses, montando três vezes no sábado e três no domingo.”
Falante, nostálgico, bem humorado, simpático, bondoso, emotivo e gentil são características que se escondem por detrás do aspecto meio rude e do comportamento estouvado do Bené. Ao longo da carreira foram 156 campeonatos e incontáveis troféus. Montou no Uruguai, na Argentina, no Paraguai e várias cidades das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Dentre elas, Bela Vista (Paraguai), Bagé, Passo Fundo, Presidente Prudente, Dourados, Ponta-Porã, Campo Grande, Poconé, Rio Manso.

Em Barretos foram nove participações: campeão (1968 e 1972), vice-campeão (1971 e 1973), terceiro lugar (1966, 1969 e 1974) e quarto lugar (1967 e 1970).

Créditos: Rádio Difusora Bondespachense / Jornal Cidade's.com

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Endereço

Av; Bandeirantes 450 . Dom Joaquim
Bom Despacho, MG
3560000

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